
Um bom livro é uma oportunidade de se ver, rever e transver, como ensina o poeta Manoel de Barros sobre o impacto do olhar atento diante do mundo. Essa obra da @nataliatimerman me pegou de jeito, foi uma de me enxergar em muitas camadas. Finalizei a sua leitura há alguns dias, mas ainda sigo apreciando o que me foi revelado. Um mergulho literário que me transpôs a experiência pessoal do luto para uma busca tão coletiva que é elaborar a morte. Do singular pro plural, o micro que expõe o macro.
A história da autora se cruzou com a minha e fez surgir essa humanidade partilhada que tanto me fascina na arte. Me provocou, instigou e emocionou do começo ao fim. Aliás, que fim! Digo, sem spoiler, que o fechamento do livro fez surgir um começo de algo novo, ao mesmo tempo, muito antigo por aqui. Foi com lágrimas catárticas que precisei fechar, em alguns momentos, o livro para senti-lo em meu corpo. Resolvi escrever para entender o quanto me atravessou a carne.

Desde que fui alfabetizada, eu sempre escrevi e mantive o hábito de escrever quase que diariamente. Reservando o sumo selvagem das minhas palavras ajuntadas por sentidos tão meus só pra mim. Do mais privado dos diários às reservadas partilhas pelas cartas, foram anos de tímida produção textual para um seleto e afetuoso grupo de leitores.
Até que vieram investidas mais ousadas, que poderiam atingir um público maior que duas pessoas: um fanzine na adolescência, um jornal interno e a comunicação institucional de dois trabalhos que tive. Ai veio o primeiro blog, depois as redes sociais, uma pequena produção de conteúdos para o meu perfil profissional e agora um site.
Ainda assim, nunca me vi como uma escritora! Só após uma série de leituras recentes – de autoras incríveis que, com primor, misturam ficção, documento e autobiografia – percebi que a criação literária pode ser muito além do que antes imaginei. Venho espiando essa minha identidade escritora que vem recebendo validação após encontrar, pela face leitora, as autoras que me amadrinham. Uma bonita guiança pelo batismo da autoria de escritas que já são gestadas e nascem desde que aprendi a desenhar o meu nome no que hoje chamo de .